Os mercados globais entraram em queda livre nesta segunda-feira, com investidores em pânico intensificando uma venda massiva de ações em resposta às tarifas abrangentes impostas pelos Estados Unidos. Em meio ao caos, o presidente americano, Donald Trump, minimizou a turbulência, comparando suas controversas medidas a um “remédio” necessário e se mostrando irredutível.
“Não quero que nada caia, mas, às vezes, você tem que tomar um remédio para consertar algo”, disse Trump a repórteres a bordo do Air Force One no domingo, adotando um tom desafiador. “Fomos tratados tão mal por outros países porque tivemos uma liderança estúpida que permitiu que isso acontecesse. Eles levaram nossos negócios, levaram nosso dinheiro, levaram nossos empregos.”
Insistindo em suas chamadas “tarifas recíprocas”, Trump afirmou que não recuará a menos que outros países equilibrem seu comércio com os EUA. Ele alegou ter conversado com muitos líderes estrangeiros no fim de semana que estariam “desesperados para fazer um acordo”. “Eu disse: ‘Não vamos ter déficits com seu país’”, relatou Trump. “Não vamos fazer isso, porque, para mim, um déficit é uma perda. Vamos ter superávits ou, na pior das hipóteses, vamos empatar.”
As declarações de Trump vieram enquanto as bolsas mundiais continuavam a despencar, afundadas pelo medo de uma guerra comercial total e de uma desaceleração econômica global.
A sangria foi generalizada na Ásia: o índice Hang Seng de Hong Kong despencou mais de 13% na segunda-feira, sua queda mais acentuada em quase três décadas. O TAIEX de Taiwan caiu 9,7%, sua maior baixa já registrada, enquanto o Nikkei 225 do Japão fechou em queda de 7,83%. Em Singapura, o Straits Times Index tombou mais de 7%. O KOSPI da Coreia do Sul caiu mais de 5%, e o ASX 200 da Austrália fechou com perdas superiores a 4%.
Na Europa, a liquidação continuou nas primeiras horas de negociação, com o FTSE 100 em Londres caindo cerca de 5% e o DAX em Frankfurt recuando aproximadamente 7%.
Nos EUA, as ações caminhavam para novas perdas acentuadas na reabertura de Wall Street, após uma derrocada de dois dias na semana passada que eliminou mais de US$ 6 trilhões (cerca de R$ 34,8 trilhões) em valor de mercado. Os futuros atrelados ao índice S&P500 caíam 2,7% no domingo, enquanto os do Nasdaq-100, de alta tecnologia, recuavam 3,55%.
Os EUA começaram a impor uma tarifa base de 10% sobre as importações no domingo, com taxas mais elevadas, entre 11% e 50%, previstas para entrar em vigor contra dezenas de países na quarta-feira. Essas tarifas mais altas atingirão tanto rivais quanto aliados dos EUA. A China, principal rival estratégico e terceiro maior parceiro comercial, enfrenta uma tarifa de 34%, enquanto a União Europeia, o Japão e a Coreia do Sul se preparam para taxas entre 20% e 25%.
A retaliação já começou. A China anunciou na semana passada uma série de contramedidas, incluindo uma tarifa de 34% sobre todas as importações dos EUA (a partir de 10 de abril) e restrições à exportação de alguns minerais críticos. O vice-ministro do Comércio chinês, Ling Ji, disse a representantes de empresas estrangeiras no domingo que as taxas visam “trazer os Estados Unidos de volta ao caminho certo do sistema multilateral de comércio”, prometendo que a China continuará sendo uma “terra promissora” para investimentos estrangeiros. A UE está preparando sua própria lista de importações americanas a serem taxadas.
Outros parceiros comerciais, como Reino Unido, Austrália, Indonésia e Taiwan, descartaram medidas retaliatórias olho por olho por enquanto.
No campo diplomático, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, deve se tornar nesta segunda-feira o primeiro líder mundial a discutir as tarifas diretamente com Trump em Washington. A pauta inclui também reféns, relações Israel-Turquia, ameaça iraniana e a disputa com o Tribunal Penal Internacional (TPI), segundo o gabinete de Netanyahu.
Em meio ao turbilhão, analistas elevaram drasticamente as chances de os EUA entrarem em recessão nos próximos 12 meses. O JPMorgan aumentou a probabilidade para 60%, enquanto a S&P Global a colocou entre 30% e 35%. “O tamanho e o impacto disruptivo das políticas comerciais dos EUA, se mantidas, seriam suficientes para levar uma expansão ainda saudável dos EUA e global à recessão”, alertou Bruce Kasman, chefe de pesquisa econômica do JPMorgan, em nota intitulada “Haverá Sangue”.
Lawrence Summers, ex-secretário do Tesouro sob Bill Clinton, afirmou que os mercados estão reagindo ao que “pode ser a política econômica mais prejudicial” implementada pelos EUA desde a Segunda Guerra Mundial. “O que está acontecendo nos mercados futuros agora sugere que há uma decepção real com o fato de o presidente estar insistindo em seus erros”, disse Summers na plataforma X.
Autoridades do governo Trump, no entanto, minimizaram o risco de recessão. “Não precisa haver uma recessão… quem sabe como o mercado vai reagir em um dia, em uma semana”, disse o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, ao programa Meet the Press da NBC no domingo. “O que estamos buscando é construir os fundamentos econômicos de longo prazo para a prosperidade, e acho que o governo anterior nos colocou no caminho da calamidade financeira.”

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