Por ocasião do recente conflito entre Israel e o Hamas, que eclodiu em 7 de outubro, observamos um curioso fenômeno: setores da extrema direita no Brasil alinharam-se inesperadamente em defesa do governo israelense. Essa aliança improvável une adeptos do bolsonarismo com membros de igrejas evangélicas, criando um movimento notável em terras tropicais.
Para decifrar os alicerces dessa peculiar relação entre segmentos da extrema direita e o apoio a Israel, o Central do Brasil conversou com o pesquisador Rodrigo Campos. Ele é coautor do livro “Sem Caminhos para Gaza,” que explora a contribuição do Egito para o cerco à Faixa de Gaza pelo governo israelense.
Campos argumenta que essa união da extrema direita em torno da causa israelense no Brasil se fundamenta em dois pilares: motivações religiosas e o papel de Israel como exportador de produtos militares. Esse último aspecto, de fato, os aproxima dos movimentos armamentistas.
Esse casamento político não é exclusivamente brasileiro, nem é uma novidade recente. A extrema direita global há tempos expressa um apoio incondicional ao Estado de Israel e suas políticas em relação aos palestinos, quase como uma bandeira identitária.
Campos sugere que a raiz desse alinhamento político entre forças da extrema direita no cenário internacional reside na islamofobia e no racismo contra os árabes. Ele destaca que Israel estabeleceu uma conexão estratégica com partidos de extrema direita na Europa, muitos dos quais possuíam históricos de antissemitismo, que agora foram redirecionados para a islamofobia. Essa ligação está diretamente relacionada aos Acordos de Abraão, que buscam normalizar as relações entre Israel e alguns países árabes e foram arquitetados pela extrema direita americana em colaboração com elementos radicais do governo israelense.
Aqui no Brasil, essa aliança é influenciada por fatores religiosos, econômicos e militares. Os Estados Unidos desempenham um papel-chave, acionando o ativismo sionista de extrema direita no país, com forte apoio de grupos evangélicos que se identificam com o Estado de Israel. Além disso, existe a teoria do dispensacionalismo, que promove a defesa de Israel como parte de uma profecia religiosa relacionada à segunda vinda de Cristo. Por outro lado, Israel é um grande exportador de tecnologia militar, atraindo o apoio da bancada da bala e de grupos de extrema direita no Brasil, como o Pró-Armas.
Nesse contexto internacional, a extrema direita brasileira questiona a capacidade do governo de Lula de mediar o conflito e promover a paz. Campos reconhece que o Brasil ainda pode desempenhar um papel conciliador, mas destaca os desafios, incluindo o complicado cenário geopolítico, no qual o Brics tem divergências sobre a questão Israel-Palestina. A diplomacia brasileira enfrenta obstáculos, mas Campos acredita que ela tem o potencial de oferecer um caminho para a paz.

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