A Marinha dos Estados Unidos apresentou um pedido formal de desculpas ao povo Tlingit do sul do Alasca pela destruição da aldeia de Angoon, ocorrida em 26 de outubro de 1882, há exatos 142 anos. Na ocasião, navios de guerra americanos bombardearam a aldeia como represália a um suposto levante contra uma companhia baleeira. Tropas desembarcaram em seguida, incendiando moradias, barcos e suprimentos, deixando os habitantes desabrigados e sem recursos com a chegada do inverno.
Em uma cerimônia realizada no último domingo, no próprio local do massacre, o almirante Mark Sucato, comandante da Marinha no Noroeste dos EUA, reconheceu a gravidade das ações cometidas. “A Marinha reconhece a dor e o sofrimento infligidos ao povo Tlingit e admite que esses atos resultaram em perdas de vidas, de recursos, de cultura e causaram traumas intergeracionais em suas comunidades”, declarou Sucato, classificando o pedido de desculpas como “muito atrasado”.
A aldeia de Angoon foi reconstruída ao longo dos anos, e, em 1973, o governo dos Estados Unidos concedeu uma indenização de US$ 90.000 (aproximadamente R$ 449 mil na cotação atual). Apesar disso, o evento sempre foi marcado por uma cerimônia de lembrança anual, na qual os membros da comunidade perguntavam, por três vezes, se alguém da Marinha estava presente para pedir desculpas, sem sucesso até este ano.
Daniel Johnson Jr., uma das lideranças tribais de Angoon, ressaltou o impacto duradouro dessa espera: “Você pode imaginar quantas gerações se passaram desde 1882, sempre se perguntando o que realmente aconteceu e por que isso aconteceu, desejando algum tipo de pedido de desculpas, pois, em nossas mentes, nunca fizemos nada de errado”.
O ataque de 1882 teria sido motivado pela morte de um xamã Tlingit, Tith Klane, após a explosão de um arpão em um navio baleeiro no qual trabalhava. Membros da tribo, inconformados com a tragédia, teriam tomado a embarcação e exigido 200 mantas como compensação. Ao recusar o pagamento, a companhia baleeira solicitou auxílio militar, alegando um “levante Tlingit”, versão contestada pelos indígenas, que negam ter tomado reféns ou exigido as mantas.
Em resposta ao incidente, o comandante Edgar C. Merriman, da Marinha, navegou até Angoon em 25 de outubro de 1882, exigindo um tributo de 400 mantas como punição. Quando os Tlingit ofereceram apenas 81, Merriman ordenou o bombardeio.
“Nos deixaram desabrigados na praia”, relatou Billy Jones, sobrinho de Tith Klane, em uma entrevista gravada nos anos 1950 e publicada em 1982. Na época do ataque, ele tinha 13 anos e relembra as tragédias que se seguiram. “Seis crianças morreram, além de incontáveis idosos e bebês que pereceram naquele inverno, vítimas do frio, da exposição e da fome”, relembrou Johnson.
Rosita Worl, presidente do Instituto de Patrimônio Sealaska, em Juneau, também destacou o desespero dos Tlingit durante o rigoroso inverno que se seguiu. Segundo ela, alguns dos anciãos da tribo “entraram na floresta” para morrer, a fim de permitir que os mais jovens tivessem acesso a mais comida.
Este pedido de desculpas é o mais recente de uma série de reconhecimentos por parte das Forças Armadas dos EUA em relação a abusos cometidos contra as comunidades nativas do Alasca. No mês passado, a Marinha pediu desculpas pela destruição da aldeia de Kake em 1869, e o Exército dos EUA planeja fazer o mesmo em relação ao bombardeio da cidade de Wrangell no mesmo ano, embora ainda não haja data definida para esse ato.
A aquisição do Alasca pelos Estados Unidos, comprada da Rússia em 1867 por US$ 7,2 milhões (cerca de R$ 153,3 bilhões em valores ajustados), foi duramente criticada até a descoberta de ouro no Klondike em 1896, que transformou a região em um importante centro de exploração econômica.

Deixe uma resposta