Nos anos 1930, enquanto o fascismo ganhava força na Europa, intelectuais da London School of Economics perceberam um padrão inquietante. Segundo o historiador Ben Jackson, da Universidade de Oxford, esses pensadores observaram que, em momentos de crise, elites econômicas tendiam a abandonar a democracia e as liberdades civis para proteger seus interesses, mesmo que isso significasse aliar-se a regimes autoritários.
Décadas depois, essa análise parece ressoar no cenário americano, onde bilionários da tecnologia se aproximam de Donald Trump, agora presidente eleito para um segundo mandato. Mesmo após o ex-chefe do Estado-Maior, general Mark Milley, descrever Trump como “um fascista em sua essência”, nomes como Jeff Bezos, Elon Musk e Mark Zuckerberg demonstram publicamente seu apoio ao líder republicano.
Bezos, fundador da Amazon e proprietário do The Washington Post, evitou que o jornal apoiasse a candidatura de Kamala Harris semanas antes da eleição. Após o resultado, celebrou no Twitter a vitória de Trump, destacando seu “extraordinário retorno político” e desejando sucesso em “unir a América que todos amamos”. Bezos, cuja fortuna ultrapassa US$ 160 bilhões (cerca de R$ 880 bilhões), enxerga no novo governo a oportunidade de neutralizar processos antitruste que ameaçam a Amazon, enquanto fortalece contratos bilionários com o governo.
Zuckerberg, CEO da Meta, também não ficou de fora. Parabenizou Trump por sua “vitória decisiva” e manifestou otimismo em trabalhar com o novo governo, sinalizando uma relação ainda mais estreita entre a gigante das redes sociais e a administração republicana.
Elon Musk, por sua vez, assume papel central como aliado estratégico de Trump. Dono da Tesla, da SpaceX e da rede social X (antigo Twitter), Musk foi escolhido para co-liderar um novo “Departamento de Eficiência Governamental”, cujo objetivo aparente é reduzir a estrutura do setor público. Como maior financiador privado da campanha republicana e propagador de informações pró-Trump, Musk consolida sua influência política em troca de potenciais vantagens econômicas.
Esses três magnatas — Bezos, Musk e Zuckerberg — possuem juntos uma fortuna estimada em US$ 740 bilhões (cerca de R$ 4 trilhões). De acordo com análises recentes, muitos líderes tecnológicos abandonaram os ideais de inovação e altruísmo outrora associados ao Vale do Silício, preferindo uma abordagem pragmática e transacional na política.
Especialistas alertam que essa proximidade entre grandes corporações e o governo acentua desigualdades e enfraquece os pilares democráticos. Jason Stanley, estudioso do fascismo, observa que condições de desigualdade extrema, como as dos EUA, geram ressentimento social e tornam as pessoas mais suscetíveis a ideologias intolerantes. Ele ressalta que a consolidação do poder republicano ameaça transformar o país em um estado de partido único, comprometendo a coesão social e legitimando preconceitos de toda ordem.
A vitória de Trump representa mais do que um triunfo eleitoral; ela simboliza um redesenho das dinâmicas de poder, priorizando os lucros corporativos em detrimento dos direitos humanos. Diante desse cenário sombrio, a solidariedade emerge como ferramenta essencial para resistir à deterioração democrática.
Fred Branfman, ativista e autor que expôs os horrores da guerra no Laos nos anos 1970, ilustra a importância de agir, mesmo quando a esperança parece inexistente. Para Branfman, o comprometimento ético transcende o otimismo ou pessimismo. “Não vivi minha vida movido por esperança, mas por estar vivo”, declarou em seus últimos anos.
É essa determinação — mais do que a crença em um futuro melhor — que se torna crucial nos dias de hoje. Ainda que o fascismo pareça ganhar terreno, a resposta não está na resignação, mas na luta coletiva por uma sociedade mais justa.

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