No bairro histórico de Sayeda Zeinab, no Cairo, uma tradição centenária ganha vida todas as noites do Ramadã: as “Mesas da Misericórdia”, onde voluntários servem refeições gratuitas a centenas de pessoas. Às vésperas do iftar — o momento de quebrar o jejum —, moradores locais, estudantes e até turistas se reúnem em frente à Mesquita Sayeda Zeinab, um dos locais mais sagrados do Egito, para compartilhar arroz, frango, tâmaras e solidariedade.
Hamdy, dono de uma cafeteria e voluntário há cinco anos, coordena a distribuição de 400 refeições diárias com ajuda de amigos e parentes. “Não somos únicos. A cada 10 metros há uma mesa como esta”, diz, orgulhoso. Os voluntários, todos em jejum, servem primeiro os convidados e só comem após o azan do Magrebe (chamado para o pôr do sol). A cena inclui desde idosos solitários até famílias sudanesas refugiadas, todos acolhidos sem questionamentos.
Uma Corrente de Fé e Comunidade:
- Origem histórica: A tradição remonta ao século IX, mas ganhou força durante a dinastia Fatímida (953-975).
- Contexto atual: Em 2023, com a inflação egípcia em 41% — agravada pela pandemia e guerra na Ucrânia —, as mesas viraram salvação para muitos.
- Doações: Recursos vêm de países do Golfo e de vizinhos que contribuem com carne, arroz ou legumes.
Na cozinha, o chef Mostafa — experiente em projetos sociais — comanda panelas gigantes. “Deixamos tudo nas mãos de Deus, e sempre dá certo”, afirma Hamdy, enquanto voluntários como Hassan, de moletom verde, distribuem água sob brincadeiras. A logística é caótica, mas repleta de risos: “Somos como irmãos aqui”, diz Hassan, que troca jantares em casa pelo serviço comunitário.
Desafios e Esperança:
- Austeridade: O Egito negocia um empréstimo de US$ 1,3 bilhão (R$ 7,54 bilhões) com o FMI, o que pode ampliar a pobreza.
- Legado: Um trecho do Alcorão na parede do armazém resume a motivação: “Alimentamos vocês apenas pela causa de Deus” (Sura Al-Insan, 76:9).
Entre os comensais está Ahmed, estudante de Tanta, que encontra nas mesas um lar simbólico. Já um senhor de bengala, em sua primeira visita, compartilha: “Estou sozinho este Ramadã”. Para Jana, de 2 anos, que rasteja entre os bancos, a mesa é um playground — sua mãe, voluntária ocasional, sorri ao buscá-la.
Ao final, Hamdy e sua equipe recolhem as mesas, comendo restos frios. “Ver pessoas felizes, mesmo por minutos, nos enche de alegria”, diz. Em um país onde a economia aperta, as Mesas da Misericórdia provam que a generosidade ainda é moeda forte.

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