O legado de Antony Blinken: Diplomacia em tempos de guerra

Durante os últimos dias de seu mandato como Secretário de Estado, Antony Blinken se dedicou a entrevistas, defendendo sua trajetória como o principal diplomata dos Estados Unidos. Contudo, a sua gestão à frente do Departamento de Estado ficou marcada por decisões que acirrou crises internacionais, incluindo o pior conflito de segurança na Europa desde a Segunda Guerra Mundial e os combates mais intensos entre israelenses e palestinos desde 1948.

O The New York Times revelou recentemente que, no final de 2022, Blinken rejeitou uma proposta do chefe do Estado-Maior Conjunto, general Mark Milley, que sugeria uma mediação para a paz na Ucrânia, e ainda confrontou generais que defendiam o envio de armamentos mais avançados a Kiev. Blinken foi um dos principais artífices do conflito ucraniano, que poderia ter sido evitado ou minimizado se a administração Biden não insistisse em aceitar a adesão da Ucrânia à OTAN, algo que a Rússia declarou ser uma linha vermelha.

Em 2021, quando a Ucrânia concentrava tropas próximas ao Donbass, Blinken garantiu ao ministro das Relações Exteriores da Ucrânia o “compromisso irrestrito” da OTAN. Meses depois, após o início das hostilidades, o Departamento de Estado de Blinken se alinhou com outras agências do governo Biden e o Pentágono no apoio ao agravamento da crise, que culminou em uma guerra por procuração entre OTAN e Rússia. O apoio incluiu bilhões de dólares em ajuda militar, além do envio de CIA e mercenários para a zona de conflito, junto com sistemas avançados de armas ocidentais.

Em outubro de 2023, após uma incursão surpresa do Hamas em Gaza, Israel lançou a maior ofensiva já registrada contra os palestinos na região. Em visita a Tel Aviv, Blinken afirmou: “Estaremos sempre ao seu lado.” No mesmo período, os EUA enviaram 14.000 MK-84, bombas de 900 kg, para Israel. Um monitor de direitos humanos calculou que, só em 2023, Israel despejou sobre Gaza mais de 70.000 toneladas de bombas, superando a tonelagem lançada sobre cidades como Dresden, Hamburgo e Londres durante a Segunda Guerra Mundial.

A administração de Blinken poderia ter pressionado pela suspensão do envio de armamentos a Israel, o que, segundo especialistas, teria encerrado os combates em poucas semanas. No entanto, o Departamento de Estado passou quinze meses falando sobre negociações de paz – que foram efetivamente conduzidas por outros países – enquanto Gaza queimava.

Além de seus envolvidos diretos em conflitos como o da Ucrânia e de Gaza, Blinken esteve por trás de outras ações agressivas da política externa dos Estados Unidos. Ao sabotar as tentativas diplomáticas de Donald Trump para melhorar as relações com Coreia do Norte logo após o início do governo Biden, Blinken foi responsável pela criação de um novo pacto de segurança tripartido com Coreia do Sul e Japão, focado no regime norte-coreano. No cenário asiático, ele também intensificou as tensões com a China, utilizando a estratégia clássica da “cadeia de ilhas” para restringir a potência asiática, além de garantir apoio a Taiwan e a assinatura do pacto AUKUS.

No Oriente Médio, Blinken também escalou as confrontações com o Irã, oferecendo suporte a Israel em ataques aéreos contra os houthis do Iémen, e perpetuando o longo conflito sírio, que culminou na derrubada do regime de Bashar al-Assad. Sua atuação também se estendeu à África, onde os EUA se envolveram em crises de países como Etiópia, Líbia, Sudão e a República Democrática do Congo. No processo, Blinken continuou a prática de intervir em regimes considerados contrários aos interesses norte-americanos, de Nicaragua a Bengladesh.

O legado de Antony Blinken, apesar de sua crueldade, não é surpreendente, dado seu apoio ativo às invasões de Iraque (2003), ao ataque aéreo da OTAN à Líbia (2011) e ao início da guerra contra a Síria no mesmo ano. Ele, mais do que qualquer outro, representa a continuação da política intervencionista americana no século XXI.

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