A recente polêmica envolvendo Elon Musk e o suposto gesto reminiscente de uma saudação fascista é apenas a superfície de um fenômeno muito mais inquietante: a tentativa crescente de minimizar os horrores do nazismo nos Estados Unidos, na Europa e além.
No dia da posse de Donald Trump como o 47º presidente dos EUA, Musk não conteve o impulso de roubar os holofotes. Durante um comício comemorativo, ele realizou um gesto que, segundo Ruth Ben-Ghiat, professora da Universidade de Nova York e especialista em fascismo, é “uma saudação nazista – e bastante agressiva”.
O gesto provocou reações opostas. Enquanto a Liga Antidifamação (ADL) minimizou o ocorrido, classificando-o como “um movimento desajeitado em um momento de empolgação”, Musk rejeitou categoricamente as acusações, chamando-as de “uma jogada suja”. “Essa narrativa de que ‘todos são Hitler’ está tão desgastada”, afirmou o bilionário em sua plataforma, X.
Porém, a polêmica é um sintoma de algo mais perturbador. A ascensão de Trump trouxe consigo um movimento para relativizar e reabilitar o legado do nazismo. Grupos supremacistas brancos e fascistas em toda a Europa e nos EUA sentiram-se encorajados, um fato evidenciado pelo entusiasmo com que receberam o gesto de Musk.
Exemplo A: Em janeiro, Musk participou de uma conversa amistosa com Alice Weidel, líder do partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AfD). Embora Weidel tente apresentar o AfD como uma alternativa conservadora ao governo de coalizão alemão, figuras do partido têm minimizado o impacto do nazismo. Um membro sênior chegou a descrever Hitler e os nazistas como “apenas um excremento de passarinho em mais de mil anos de história bem-sucedida da Alemanha”. Outro membro criticou o memorial do Holocausto em Berlim como “uma vergonha” que precisa ser revisada.
Exemplo B: Em outra ocasião, Musk compartilhou uma entrevista de Tucker Carlson, ex-apresentador da Fox News, com o controverso “amador da história” Darryl Cooper. Na conversa, Cooper sugeriu que o Holocausto foi um subproduto não planejado do sucesso militar inicial da Alemanha nazista, uma narrativa amplamente desmentida por historiadores. Embora Musk tenha apagado a postagem após críticas, o dano já estava feito.
O ressurgimento desse tipo de revisionismo histórico não é coincidência. Figuras como Trump, que segundo seu ex-chefe de gabinete, John Kelly, elogiou Hitler por ter feito “boas coisas”, contribuíram para normalizar tais ideias. A meta final é clara: tornar os ideais fascistas mais aceitáveis para o público, enquanto prometem soluções fáceis para problemas complexos.
Diante desse cenário preocupante, vale lembrar o antigo aviso: caveat emptor – o comprador que se cuide.

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