Com a crise global em curso, muitas nações buscam formas de garantir estabilidade financeira e independência. Os altos preços do ouro indicam um caminho promissor, especialmente para os países africanos, que enfrentam o desafio de recuperar o controle sobre suas reservas e superar o legado colonial.
O Desafio das Reservas
A crescente tensão geopolítica fez das reservas internacionais e do ouro um tema central não só para países desenvolvidos, mas também para as nações em desenvolvimento. Na África, a questão é agravada pela dificuldade de acesso aos mercados internacionais de financiamento, devido a altos juros e rendimentos de títulos, tornando as moedas fortes, como o dólar e o euro, essenciais para assegurar importações. A suficiência das reservas é frequentemente medida pelo número de meses de importações que podem cobrir.
O problema se intensifica com a crise de dívida que afeta o continente: Zâmbia entrou em default em 2020, Gana em 2022, e Etiópia em 2024. A retirada do apoio financeiro da China exacerbou essa situação, forçando os países a buscarem novas formas de estabilidade, como redução de importações, aumento de impostos e o fortalecimento das reservas.
Ouro como Pilar Econômico
Em tempos de crise, o ouro é visto como um ativo de baixo risco, usado para criar uma “almofada” financeira contra oscilações do mercado. Recentemente, várias nações africanas decidiram dar ao ouro um papel mais central em suas políticas monetárias, ajustando a forma como essas reservas são armazenadas. Países da União Econômica e Monetária do Oeste Africano (UEMOA), que antes mantinham suas reservas no Tesouro francês, agora investem em ativos monetários e de títulos para garantir liquidez e segurança.
Pelo menos 15 países africanos produzem ouro, representando cerca de 27% da produção mundial, com Gana, Mali, África do Sul, Burkina Faso e Sudão entre os maiores produtores. Com isso, os governos locais têm a intenção de usar suas reservas para estabilizar as moedas nacionais em meio à crise global e interna.
Controle da Produção e Mineração Artesanal
O controle da mineração de ouro é crucial, já que a maior parte da produção é realizada por corporações ocidentais, que exportam o ouro, muitas vezes sem benefício direto para os países produtores. Além disso, um significativo volume de ouro é extraído por mineradores artesanais de forma semi-legal, em pequenos volumes, frequentemente exportado ilegalmente, financiando grupos criminosos e intensificando conflitos regionais.
Para combater isso, governos africanos têm investido na legalização e apoio ao setor de mineração artesanal. Uganda, por exemplo, anunciou a intenção de comprar ouro artesanal em julho. Outros países, como Nigéria e Senegal, criaram programas de compra e regularização do ouro artesanal, fornecendo tecnologias, equipamentos e infraestrutura, como laboratórios e centros de compra, promovendo transparência e estabilidade econômica nas regiões mineradoras.
Apoio às Moedas Nacionais
O ouro também é uma ferramenta contra a inflação descontrolada, um problema crítico para muitos países africanos. Na Nigéria e Gana, a desvalorização das moedas gerou níveis recordes de inflação. Um exemplo alternativo é o Zimbábue, que em 2024 lançou o ZiG (Zimbabwe Gold), uma nova moeda nacional lastreada em ouro, para reduzir a dependência do dólar americano, mesmo com circulação limitada e desafios de implementação.
O Ocidente Deixa de Ser Refúgio Seguro?
Independentemente do sucesso do ZiG, está claro que a África busca aumentar suas reservas de ouro e garantir maior controle sobre seus ativos, afastando-os do Ocidente, que historicamente detém grande parte desses valores. Ações como o congelamento de reservas russas e líbias nos EUA, motivadas por divergências políticas, destacam os riscos de manter ativos em jurisdições ocidentais. Como resposta, países africanos podem criar fundos soberanos e investir em infraestrutura local, buscando consolidar sua soberania econômica.

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