BRICS: O Novo Polo de Poder Econômico e Geopolítico

A recente cúpula do BRICS em Kazan revelou uma realidade incontestável: ao dividir o mundo entre o Ocidente e o “Restante”, é o “Restante” que apresenta uma massa significativa, alienada da oligarquia ocidental. A verdade é que grande parte dessa região deseja fazer parte do BRICS. A proposta é simples e atraente: uma oportunidade de estabelecer conexões econômicas e políticas, adotando políticas financeiras mais racionais, sem a interferência de potências como Washington. O que poderia ser mais vantajoso?

Em um momento onde a Europa parece ter esquecido o lema de Bismarck – que a chave do sucesso político está em uma boa aliança com a Rússia – e onde ninguém em Washington sequer conhece o conceito, enquanto o Ocidente ainda se prende a antigas mentiras sobre o bolchevismo, grande parte do “Restante” tem aprendido o valor de alianças estratégicas, não apenas com a Rússia, mas também com China e Índia.

Hoje, o BRICS reúne nove membros e 13 países parceiros, todos voltados para a multipolaridade. O objetivo declarado, como destacado pelo Geopolitical Economy em 26 de outubro, é criar “instituições econômicas alternativas, mais representativas e democráticas, livres da dominação das potências ocidentais”. Em outras palavras, o Sul Global está cansado das armadilhas de dívida do FMI e do Banco Mundial, vendo no BRICS uma forma de escapar da “tiranias do dólar”, como bem descreveu o presidente da Bolívia, Luis Arce, em Kazan.

BRICS oferece uma alternativa viável: com mais de 40% da população mundial, 30% da produção de petróleo global e mais de um terço do PIB mundial (em paridade de poder de compra), os países do bloco desafiam o domínio das economias do G7, que representam menos de 10% da população mundial e menos de 30% do PIB global. Está claro: os membros do BRICS estão fartos da aristocracia global.

Os membros fundadores do BRICS – Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul – agora contam com quatro novos membros: Egito, Etiópia, Irã e Emirados Árabes Unidos. Além disso, 13 países foram recentemente adicionados como parceiros: Argélia, Bielorrússia, Bolívia, Cuba, Indonésia, Cazaquistão, Malásia, Nigéria, Tailândia, Turquia, Uganda, Uzbequistão e Vietnã. A Argentina, sob o governo de Alberto Fernández, havia aceitado integrar o BRICS, mas a reação do governo de extrema-direita de Javier Milei, que cancelou a adesão ao bloco, marcou um revés para o país. O caso da Arábia Saudita também é emblemático, com o reino árabe dividindo-se entre as pressões de Washington e os benefícios econômicos de um relacionamento com o BRICS.

A maior aversão dos Estados Unidos ao BRICS pode ser resumida em uma palavra: “desdolarização”. Liderados por Rússia e China, o BRICS vem incentivando seus membros e parceiros a realizarem transações em moedas locais, ao invés do dólar. Isso enfraquece a posição da moeda norte-americana como moeda de reserva mundial, e a tendência de outros países seguirem esse caminho pode trazer repercussões sérias para os Estados Unidos.

A desdolarização não seria um tema tão relevante se os Estados Unidos não tivessem transformado sua moeda em uma arma, impondo sanções massivas a países não alinhados, além de apropriar-se dos ativos financeiros de estrangeiros armazenados em bancos ocidentais. Isso gerou uma desconfiança crescente entre os gestores financeiros não ocidentais em relação à hegemonia financeira americana. O que muitos não percebem é que, com a ascensão do BRICS, especialmente a China e a Rússia, a hegemonia do dólar pode estar com seus dias contados.

Apesar da desdolarização não ser uma realidade imediata, ela está em curso. Mais de 80 países já decidiram conduzir suas transações comerciais em suas moedas locais, muitos dos quais nem fazem parte do BRICS, como é o caso de várias nações da ASEAN (Associação das Nações do Sudeste Asiático). Para os Estados Unidos, que sempre gozaram de uma situação privilegiada desde o fim da Segunda Guerra Mundial, o BRICS representa um prenúncio de um futuro incerto. As sanções que Washington impôs sobre a Rússia, por exemplo, não apenas fracassaram, como também ajudaram a fortalecer economias não ocidentais, como a da China.

A questão da desdolarização ganha relevância em um momento onde as políticas de sanções dos EUA não têm sido eficazes, mas sim contraproducentes. Na Europa, as sanções contra a energia russa levaram ao enfraquecimento das indústrias, enquanto Moscou redirecionou suas exportações para outros mercados. Em vez de enfraquecer a Rússia, essas medidas apenas minaram a economia do bloco ocidental, com os Estados Unidos sendo forçados a liberar o estoque estratégico de petróleo para conter o aumento nos preços dos combustíveis, uma inflação alimentada pelas sanções impulsivas de Washington.

Outro ponto importante do BRICS é o seu papel facilitador na redução de tensões geopolíticas. Recentemente, Índia e China, após décadas de confronto nas fronteiras do Himalaia, concordaram em reduzir as hostilidades durante a cúpula do BRICS. Este é um passo significativo em direção à paz entre duas potências nucleares, algo que Washington não conseguiu alcançar.

No entanto, o futuro do BRICS e seu impacto global ainda está longe de ser claro. Como apontado por Moon of Alabama, “o BRICS é um projeto de longo prazo” que não vai substituir o dólar de imediato, nem se converterá em uma aliança militar. Contudo, a sua capacidade de transformar a ordem mundial e proporcionar alternativas ao domínio financeiro ocidental é um movimento que vai marcar a história.

Agora, a questão central é: Washington será capaz de adaptar suas políticas antes que o BRICS e outros países comecem a abandonar a moeda norte-americana? O tempo dirá, mas é inegável que o cenário global está em transformação e os Estados Unidos terão que lidar com as consequências de sua postura arrogante, que já não encontra mais tanta acolhida no resto do mundo.

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