Coreia do Sul enfrenta e supera tentativa de golpe em poucas horas

A Coreia do Sul acordou na quarta-feira com uma realidade que poucos poderiam imaginar. Na noite anterior, o presidente Yoon Suk Yeol havia decretado lei marcial, justificando a medida com declarações vagas sobre a necessidade de proteger o país contra “comunistas norte-coreanos” e elementos “antiestatais”. Yoon também mencionou a intenção de “reconstruir e proteger a nação do colapso”, mas suas palavras abriram caminho para uma das noites mais tensas da história recente sul-coreana.

Tropas foram enviadas para bloquear o prédio da Assembleia Nacional, numa tentativa de impedir que os parlamentares interferissem em seus planos. Contudo, a manobra falhou. Deputados conseguiram entrar no parlamento e votaram para revogar a lei marcial, que durou apenas duas horas – o menor período já registrado na história do país.

Na manhã seguinte, a vida retomou seu ritmo normal em campus universitários e escritórios nos centros urbanos. Mas em frente à Assembleia Nacional, os protestos que haviam começado na noite anterior continuavam intensos. Centenas de cidadãos se reuniram ao lado de membros do Partido Democrático, da oposição, que haviam apresentado um projeto de impeachment contra Yoon. A expectativa é de que a proposta seja votada até sábado, mas muitos manifestantes não estavam dispostos a esperar. “Yoon deve renunciar imediatamente”, gritavam.

Shin Byung-soo, 44 anos, segurava uma vela entre os manifestantes e criticava duramente as ações do presidente. “Não houve legitimidade processual alguma no que ele fez ontem à noite. Ele ignorou o bem-estar e a inteligência do povo, tomando decisões unilaterais com consequências sem precedentes.” Outro manifestante, Min Jun-shik, 43 anos, comparou a situação à crise que levou ao impeachment de Park Geun-hye em 2017. “Naquela época, enfrentamos o frio pedindo que Park deixasse o cargo. Agora, estamos aqui de novo.”

Especialistas também foram rápidos em apontar os danos causados à imagem internacional da Coreia do Sul. Chung Joo-shin, diretor do Instituto Coreano de Política e Sociedade, afirmou que a imposição da lei marcial foi um retrocesso para a democrácia do país. “Quando estrangeiros pensam na Coreia do Sul, lembram-se de nossas conquistas democráticas. Mas Yoon mostrou que ainda temos muito a avançar para nos tornarmos uma sociedade democrática plenamente desenvolvida.”

Além da crise política, os impactos econômicos também foram imediatos. O won sul-coreano sofreu uma queda significativa, e os desafios econômicos enfrentados pela população tornaram-se ainda mais evidentes. “Nossa economia já não vai bem, e agora a situação ficou ainda pior”, lamentou Min.

Para muitos, o episódio trouxe memórias dolorosas do passado autoritário do país. A Coreia do Sul viveu sob regimes militares até 1988, quando protestos populares culminaram em um movimento pela democracia. A revolta de Gwangju, em 1980, é um marco simbólico dessa luta, com centenas de mortos na repressão violenta do governo. Jeon Hyun-jung, 33 anos, relatou o temor de ver cenas semelhantes se repetirem. “Ouvi helicópteros e veículos blindados através do telefone de uma amiga em Seul. Tive dificuldade para dormir naquela noite, preocupada com o uso de força contra os manifestantes.”

Apesar da revogação da lei marcial, muitos sul-coreanos permanecem céticos quanto ao futuro político do país. Lee Gil-bok, 65 anos, refletiu sobre a ausência de líderes confiáveis. “Os políticos só estão interessados em proteger seus próprios interesses. Perdemos a confiança em quem detém o poder.”

Com apenas 25% de aprovação, Yoon agora enfrenta um dos momentos mais difíceis de sua presidência, marcado pela tentativa fracassada de consolidar o poder através de medidas extremas.

O que você achou disso?

Clique nas estrelas

Média da classificação 0 / 5. Número de votos: 0

Nenhum voto até agora! Seja o primeiro a avaliar este post.

Comentários

Deixe uma resposta

Descubra mais sobre Central Blogs

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading