Desigualdade: Um Estudo Revelador sobre o Papel da Classe e da Raça na Mobilidade Social nos EUA

Em uma recente coluna de opinião, Lydia Polgreen argumentou que, se Kamala Harris for rotulada como uma candidata de Diversidade, Equidade e Inclusão (DEI), então o mesmo deveria valer para J. D. Vance. Ela baseia essa posição em uma pesquisa de um estudioso da Universidade Tufts que afirma que universidades de elite, como Yale, onde Vance se formou, oferecem apoio adicional a estudantes brancos de baixa renda para que possam prosperar. Em outras palavras, a ação afirmativa parece estender-se também àqueles que enfrentam desvantagens socioeconômicas. Embora as universidades apoiem estudantes de baixa renda, esses jovens ainda precisam enfrentar o difícil processo de admissão. Após serem aceitos, os estudantes brancos, ao contrário dos de minorias raciais, não têm status protegido sob as diretrizes de DEI, o que limita as possibilidades de proteção contra exclusão e preconceito.

No entanto, essa distinção de raça e não de classe nas políticas de inclusão tem sido questionada, sobretudo em um cenário onde a concentração de riqueza se acentua e a classe trabalhadora enfrenta crescentes dificuldades. Na prática, a cor da pele ainda prevalece como critério prioritário nas políticas de inclusão para minorias étnicas protegidas, embora a inclusão da classe social nas diretrizes de ação afirmativa pudesse oferecer uma proteção mais robusta para aqueles que também são desfavorecidos economicamente.

Um estudo recente da Universidade de Harvard investigou a relação entre raça e classe entre gerações. Focado em indivíduos das gerações X e Y, o estudo analisou 57 milhões de pessoas nascidas entre o final da década de 1970 e início dos anos 1990, comparando populações de baixa renda entre brancos e negros. Entre a geração Y branca, observou-se uma queda de renda em comparação com a geração X, enquanto o grupo negro, em média, experimentou um aumento de US$ 1.420, ao contrário dos brancos, que tiveram uma queda de US$ 2.050. Esses dados apontam para um estreitamento da diferença de renda entre negros e brancos ao longo das gerações, embora os valores absolutos não sejam tão significativos. Historicamente, os brancos mantiveram vantagem econômica por gerações, mas os resultados atuais antecedem a onda de ativismo social que ganhou força em 2020, após a morte de George Floyd e a ascensão da agenda de inclusão durante o governo Biden.

O estudo conclui que, entre as duas gerações, o papel da raça na mobilidade social diminuiu, enquanto a classe econômica passou a desempenhar um papel mais relevante. Entretanto, conforme analisaram os pesquisadores German Lopez e Ashley Wu, fatores como a qualidade do ambiente comunitário, status familiar, redes sociais, oportunidades de emprego e infraestrutura também influenciam a mobilidade, evidenciando que a trajetória de vida das pessoas não depende apenas de aspectos como raça e classe. Comunidades com esses fatores positivos têm mais chance de alcançar o sucesso, embora historicamente esses benefícios tenham sido mais acessíveis à população branca. Contudo, o estudo também mostra que essas condições têm favorecido cada vez mais a população negra de baixa renda, enquanto a ausência delas tem prejudicado a população branca de baixa renda.

No recorte regional, a melhora foi relativamente uniforme para a população negra em todo o país, com melhor desempenho no sudeste. Já para a população branca, a reversão da mobilidade ocorreu em áreas rurais, sobretudo no meio-oeste e nas montanhas, regiões fortemente impactadas pela perda de empregos para outros países e pela globalização desde os anos 1970. Esse processo desindustrializou vastas áreas dos EUA, afetando profundamente a subsistência econômica e cultural dessas comunidades, cujas consequências são visíveis até hoje.

Lopez e Wu sugerem algumas razões para essa disparidade entre as comunidades. Eles apontam que trabalhadores brancos podem ter acumulado mais riqueza ao longo das gerações, o que lhes permitiu suportar períodos de desemprego, mas a custo da mobilidade. Outro fator é a possível relutância em buscar novos empregos, especialmente em setores tradicionais como a indústria siderúrgica, que empregava várias gerações de uma mesma família. Esse apego ao setor tornou a transição mais difícil. Em contraste, comunidades negras, menos vinculadas a esses setores, conseguiram maior mobilidade, especialmente com o aumento de oportunidades de trabalho e menor resistência a novas ocupações.

O estudo destaca um problema estrutural: o aumento da desigualdade como um todo, o que é especialmente perceptível na população branca, mas também presente entre a população negra. Esse fenômeno é resultado do sistema capitalista neoliberal, que intensifica a acumulação de capital nas mãos do 1% mais rico, independentemente da cor da pele.

Diante desse contexto, o estudo sugere uma revisão das políticas de ação afirmativa para incluir a classe social, sem enfraquecer a proteção baseada na raça, como uma medida para promover uma igualdade mais abrangente e reduzir a disparidade socioeconômica entre os americanos de baixa renda.

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