Sinais de Trabalho Excessivo: Como Identificar e Lidar com a Compulsão por Trabalho

Em um mundo que nunca desacelera e sempre está conectado, a compulsão por trabalho – ou workaholism – emerge como um problema cada vez mais comum e preocupante. Psicólogos passaram a considerar essa tendência incontrolável de trabalhar como uma forma de adição, com repercussões significativas para a vida pessoal e profissional dos indivíduos.

Imagine um contador que preenche planilhas enquanto está na praia, um tosador de cães que nunca se recusa a atender mais um cliente, ou um jogador de basquete que treina arremessos até a exaustão. Profissões e ocupações diferentes compartilham o mesmo padrão de comportamento obsessivo, que se intensifica na era digital, onde a pressão para enviar um e-mail a mais, atender um cliente adicional ou realizar uma tarefa extra se torna avassaladora.

De acordo com uma revisão recente sobre a prevalência da compulsão por trabalho em diversos campos e culturas, cerca de 15% dos trabalhadores se qualificam como workaholics, resultando em milhões de funcionários globalmente sobrecarregados que não sabem quando parar. Essa condição vai além de uma ética de trabalho saudável, atravessando o limite para uma forma de adição, conforme explica Toon Taris, cientista comportamental da Universidade de Utrecht, na Holanda.

O que caracteriza verdadeiramente o workaholism? Segundo Taris, o termo é frequentemente usado de maneira superficial, mas a adição ao trabalho é mais complexa e perigosa do que muitos percebem. A revisão realizada por Taris e Jan de Jonge, da Universidade de Tecnologia de Eindhoven, revela que o workaholism envolve quatro dimensões principais: motivações, pensamentos, emoções e comportamentos. As pessoas que verdadeiramente sofrem com essa condição têm uma compulsão interna para trabalhar, pensamentos persistentes sobre trabalho, sentimentos negativos quando não estão trabalhando e ultrapassam as expectativas razoáveis.

Pessoas com certos perfis de personalidade, como perfeccionistas e aqueles com traços de personalidade tipo A (ambiciosos, agressivos e impacientes), são mais suscetíveis ao workaholism, conforme revelado por uma meta-análise de 2016 realizada por Malissa Clark e colegas. Curiosamente, a baixa autoestima não parece ser um fator de risco significativo para essa condição.

O workaholism pode se manifestar em qualquer profissão e entre indivíduos de diferentes origens e condições socioeconômicas. Jack Hassell, especialista em recursos humanos na Nova Zelândia, entrevistou 15 pessoas que se identificam como workaholics e descobriu que, apesar de suas diversas origens, todos compartilham o mesmo problema fundamental. Além disso, estudos mostram que certos ambientes de trabalho, especialmente aqueles que incentivam competição e longas horas, são mais propensos a promover a adição ao trabalho.

A tecnologia, com ferramentas como Zoom e Slack, pode ter exacerbado o problema, tornando mais fácil para as pessoas trabalhar a qualquer hora e em qualquer lugar. Clark e outros especialistas observam que o trabalho remoto, amplamente adotado durante a pandemia, criou um novo grupo de trabalhadores que perderam completamente a noção das fronteiras entre vida profissional e pessoal.

As consequências do workaholism são profundas. Embora trabalhadores excessivamente dedicados possam obter ganhos de curto prazo, como mais vendas ou horas extras, esses benefícios podem ser efêmeros. Estudos mostram que não há uma correlação clara entre workaholism e desempenho no trabalho. Na verdade, trabalhar excessivamente pode levar à fadiga e erros prejudiciais. Em alguns contextos, como o da saúde, os erros cometidos por workaholics podem ter consequências graves, como observado em um estudo de 2018 com enfermeiros na Noruega.

Para combater o workaholism, é importante adotar práticas que ajudem a encontrar um equilíbrio. Programar períodos de descanso, visualizar conquistas diárias e buscar mindfulness são estratégias recomendadas. No entanto, ainda não há uma solução única para curar o workaholism de forma definitiva. Empresas podem implementar práticas para ajudar a prevenir o burnout, como limitar o acesso a materiais de trabalho fora do horário e incentivar uma abordagem saudável ao trabalho.

Em última análise, se os workaholics não estão dispostos a fazer mudanças, pode ser difícil intervir. Amizades, familiares e até mesmo políticas empresariais podem não ser suficientes para parar alguém que está consumido pela compulsão por trabalho, que pode continuar enviando um e-mail a mais, mesmo quando as consequências para a saúde e a qualidade de vida são evidentes.

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