Em um movimento sem precedentes na política francesa, o parlamento aprovou uma resolução para o início do processo de impeachment do presidente Emmanuel Macron, após a controvérsia em torno da nomeação de Michel Barnier como primeiro-ministro, contrariando a escolha da coalizão que detém a maior quantidade de assentos na Assembleia Nacional.
O processo foi impulsionado pela Frente Popular Nova (FPN), uma coalizão de esquerda que, embora tenha conquistado o maior número de cadeiras nas eleições legislativas deste ano, não obteve maioria absoluta. A gota d’água foi a decisão de Macron de ignorar a candidata da FPN ao cargo de primeiro-ministro, Lucie Castets, optando por Barnier, ex-comissário da União Europeia e membro do partido conservador Les Républicains, que ocupa apenas 61 dos 577 assentos na Assembleia Nacional.
Com mais de 80 parlamentares da FPN assinando a petição, o grupo conseguiu cumprir o requisito constitucional de obter o apoio de ao menos 10% dos membros do parlamento. A proposta foi aprovada pelo Bureau da Assembleia Nacional em uma votação apertada, com 12 votos a favor e 10 contra, permitindo que o processo avance para a próxima etapa, que será conduzida pelo Comitê Jurídico.
Jean-Luc Mélenchon, líder da França Insubmissa, uma das principais forças da FPN, comemorou a decisão nas redes sociais, alertando que “ignorar o resultado do voto universal não ficará sem consequências para Macron”.
Agora, o comitê terá que deliberar sobre o caso, sendo obrigatório incluir o processo na agenda parlamentar dentro de duas semanas após a conclusão de suas discussões. Caso o processo avance para o plenário, será a primeira vez na história da Quinta República que o impeachment de um presidente seria debatido na Assembleia Nacional.
Para que o impeachment seja aprovado, é necessária uma maioria de dois terços na Assembleia Nacional, ou seja, 385 votos. No entanto, mesmo somando todos os partidos da oposição, eles alcançam apenas 364 cadeiras, o que torna improvável o sucesso do processo. Se a Assembleia eventualmente aprovar a resolução, ela seria então encaminhada ao Senado, onde também necessitaria de 232 votos para seguir adiante.
Macron formou uma aliança tática com a FPN durante o segundo turno das eleições legislativas de julho, quando o partido populista de direita, Reunião Nacional (RN), ameaçava emergir como a maior força política. Com essa estratégia, a FPN conquistou 180 cadeiras, seguida pelo bloco de Macron, com 159, enquanto a RN viu sua bancada reduzida a 142 parlamentares. Os conservadores, por sua vez, obtiveram apenas 39 assentos.
Inicialmente, Macron manteve Gabriel Attal como primeiro-ministro em um mandato técnico, mas, no início de setembro, optou por nomear Michel Barnier, do partido Les Républicains, como seu sucessor, o que gerou uma forte reação da oposição.

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